Procurar
conhecer e compreender todos os segredos da teoria da aerodinâmica,
não é absolutamente indispensável para
ter o prazer de voar e vir a ser um bom piloto. Compreender
como podemos vencer a gravidade e pôr um "airbus",
com toneladas, a voar, é um desafio suficientemente
interessante para o aceitarmos e perdermos um pouco de tempo
com ele, certos de que a nossa segurança sairá
muito reforçada.
A
resistência do ar
O
ar é um fluido, e já foi demonstrado há
muito que as forças que se exercem sobre um corpo em
movimento ou repouso são idênticas, quer seja
o fluido que se desloca sobre corpo imóvel, ou o corpo
que se desloca no fluido.
Para
compreendermos como se comporta um objeto atravessado pelo
o ar, é possível fixa-lo e produzir um fluxo
de ar na sua frente. É o princípio prático
do Túnel de vento. Para estudar, por exemplo, o perfil
de uma asa, instala-se a asa no túnel, e graças
a hélices, passa-lhe um fluxo de ar de velocidade e
características conhecidas (densidade, por exemplo)
permitindo assim estudar o seu comportamento.
Qualquer
objeto que se desloca numa massa de ar, rompe o seu equilíbrio
e as partículas de ar imóveis vão reagir
resistindo ao avanço do objeto em movimento.
Há
um escoamento de ar ao longo do objeto, e em função
da "qualidade" desse escoamento, a resistência
do ar será mais ou menos importante.
A
resistência do ar, chamada R, depende de vários
fatores, todos influentes na qualidade do escoamento, que
são a superfície e a forma do objeto, a densidade
do ar e a velocidade do objecto em relação ao
ar (a sua velocidade/ar).
A
superfície do objeto
No
parapente a superfície do objecto não é
só a asa, mas sim o conjunto formado pela asa, o piloto,
os suspensores.
A
resistência ao ar é proporcional à superfície
exposta perpendicularmente ao escoamento de ar (trajectória).
É
por isso que em competição cada vez se voa mais
deitado, os suspensores são cada vez mais finos, os
fatos de voo justos e em licra, os reservas postos à
frente.
A
forma do objeto
Expondo
um objeto no túnel de vento é possível
determinar em função da sua forma e da sua posição
um coeficiente de resistência ao ar: CR.
1 Disco plano CR = 1 como unidade
2 Esfera CR = 0,4
3 Cone CR = 0,6
4 Semi-esfera CR = 0,3
5
Fuso CR = 0,04
Constata-se imediatamente que o objecto em forma de fuso oferece
25 vezes menos resistência ao ar que o disco. Além
do mais o fuso evita as turbulências atrás (bordo
de fuga), que são responsáveis por um aumento
de resistência ao avanço (CX.)
A
densidade do ar
A
resistência do ar R, é proporcional à
densidade do ar, se a densidade d, for duas vezes mais fraca,
R será duas vezes mais fraca.
A
densidade varia com a temperatura e sobretudo com a pressão
e a altitude.
A
relação velocidade / ar
É
o factor mais influente, R é função do
quadrado da velocidade.
A
Sustentação
Princípio
de Bernoulli
Em
1738 o físico suíço Bernoulli descobriu
que a pressão exercida por um fluido sobre a parede
de um tubo decresce à medida que aumenta a velocidade
de escoamento.
Podemos
verificá-lo por uma experiência muito simples:
ao segurarmos uma folha de papel com as duas mãos e
soprarmos sobre a superfície, o bordo livre sobe devido
ao efeito da depressão criada pela velocidade do ar.
Ao
inclinarmos um perfil em relação ao vento relativo,
fazemos com que a distância de escoamento pelo extradorso
seja maior que pelo intradorso, o que obriga as moléculas
de ar que circulam por cima a acelerar, para acompanhar as
que passaram por baixo.
Portanto,
o abaixamento de pressão é mais marcado no extradorso.
Como criámos uma sobre-pressão no intradorso
ao inclinarmos o perfil, o resultado é uma força
dirigida para cima, geradora de sustentação.
As
proporções envolvidas são, de maneira
geral, as seguintes:
-
2/3 de sustentação pela depressão do
extradorso
- 1/3 de sustentação pela sobre-pressão
do intradorso
A
sustentação é portanto um fenómeno
físico, gerado pelo perfíl e pela aceleração
das moleculas de ar.
A este conjunto de forças opõem-se o peso do
piloto mais aeronave, aplicado no chamado centro de gravidade,
de sentido, negativo ou seja de cirna para baixo, e que constitui
o nosso motor, a força geradora do nosso movimento,
que aliás como em qualquer planador é sempre
descendente.
Em
síntese, voamos porque nos deslocamos para a frente
e assim mantemos uma velocidade ar suficiente para o perfil
de nosso parapente funcionar, contrariando o nosso peso.
No
esquema ao lado cada seta, representa uma força, todas
diferentes, segundo a sua posição, com o valor
da depressão a variar em cada ponto do perfil.
Esquematicamente
, reagrupam-se todas numa única força, a sustentação,
num ponto chamado centro de pressões (CP), situados
sensivelmente no primeiro 1/4 da frente da corda do perfil.
A sustentação exerce-se perpendicularmente ao
vento relativo, a maior parte das vezes chamado trajectória.
É neste mesmo CP que se exerce a resistência,
oposta à trajectória, como vimos anteriormente.
A soma vectorial das duas forças, chama-se Resultante
das Forças Aerodinâmicas, RFA.
Vemos,
portanto que uma asa é perfilada para obter o máximo
de sustentação, e que apesar de tudo, oferece
sempre resistência, á qual se vai somar a resistência
oferecida pelo próprio piloto, suspensores, etc.
A
sustentação, assim como a resistência,
dependem em grande parte da: superfície,, velocidade/ar,
densidade do ar e da forma do corpo, o perfil da asa.
Em
voo, a força da gravidade exerce-se sobre nós
e sobre a nossa asa, mas graças às suas qualidades
aerodinâmicas, a nossa deslocação não
é vertical, mas inclinada, segundo um ângulo
formado pela linha horizontal e a trajectória, o ângulo
de planeio.
Para
modificar a nossa trajectória teremos de podemos aumentar
ou diminuir a nossa velocidade / ar, pela acção
dos comandos, modificando a nossa incidência e portanto,
a sustentação e RFA. É por isso que podemos
qualificar o parapente como uma aeronave pilotavel.
A
POLAR
Consideremos
uma asa de parapente a voar numa atmosfera calma: nem vento,
nem ascendentes, nem descendentes, nem turbulência.
Em
voo directo, a velocidade decompõe-se em:
Uma
velocidade horizontal VH, que é velocidade à
qual se liga horizontalmente, um ponto ao outro e que se exprime
habitualmente em Km/h.
Uma
velocidade vertical VV, à qual se chama taxa de queda,
que corresponde à velocidade que descemos para o solo.
Exprime-se normalmente, em metros por segundo, m/s .
A
resultante destas duas velocidades é a velocidade sobre
trajectória (VT).
Tomemos
uma asa, consideremos as condições ideais (atmosfera
calma: nem vento, nem ascendentes, nem descendentes, nem turbulência),
e em voo, à medida que vamos mexendo nos comandos,
vamos anotando os valores que o nosso variómetro, nos
vai dando.
Normalmente
usam-se unidades diferentes para a VH e para a VV, porque
a VH é da ordem dos 20 aos 60 Km/h e VV de 0.9 a cerca
de 4 m/s. Para informação 1m/s = 3,6 Km/h.
Simulemos
uma leitura em voo:
Primeira
leitura A: Posição de freios - Braços
em cima
O anemômetro mediu: VH1 = 36 km/h ou seja 10m/s
O variómetro mediu . VV1 = 2,3 m/s
Segunda
leitura B: Posição de freios - Manobradores
à altura das orelhas
O anemômetro mediu: VH2 = 30 km/h ou seja 8,33m/s
O variómetro mediu. VV2 = 1,66 m/s
Terceira
leitura C: Posição de freios - Manobradores
A altura dos ombros
O anemômetro mediu: VH3 = 23 km/h ou seja 6,38m/s
O variómetro mediu. VV3 = 1,4 m/s
Quarta
leitura D: Posição de freios - Manobradores
ao nível das ancas
O anemômetro mediu: VH4 = 18 km/h, ou seja, 5 m/s
O variómetro mediu. VV4 = 2,5 m/s
Quinta
leitura E: Braços estendidos e manobradores completamente
em baixo:
A velocidade horizontal será zero e a taxa de queda
torna-se assustadora. Asa entra em perda.
Transportemos
os valores para o gráfico em baixo e teremos:
Em
A - a velocidade máxima
Em B - a finesse máxima
Em C - a taxa de queda mínima
Em D - o ponto limite inferior, em que a asa ainda é
pilotavel.
Em E - o ponto de Perda da asa
A
Finesse é a relação entre a velocidade
horizontal e a velocidade vertical:
Finesse = Velocidade horizontal / Velocidade vertical
A
polar é sempre função de um determinado
peso piloto. Ambas as velocidades variam em função
da carga alar (peso total em voo). No entanto a curva será
sempre igual. Com um piloto mais pesado a asa será
mais rápida, terá maior taxa de queda, será
mais reactiva, mas chegará ao mesmo ponto. ( Em teoria,
na prática poderá ser muito perigoso, pois o
parapente é um pedaço de pano mole e necessita
de um peso mínimo e máximo).
CARGA
ALAR
Chama-se
carga alar (CA) à relação entre a superfície
da asa e o peso total em voo (asa, cadeira, instrumentos,...),
logo mede-se em kg/m2. Aparentemente a “CA” ideal
deverá ser aproximadamente 3.1 kg/m2
O
tamanho da asa, varia com o peso do piloto. Para o mesmo modelo,
quanto mais pesado é o piloto, maior será a
asa. Geralmente as asas trazem um autocolante, ao centro ou
num dos estábilos, onde está afixado o peso
mínimo e o peso máximo autorizados. No manual
da asa além destas informações vem qual
o peso ideal. Quando falamos em peso, devemos apurar sempre
se se trata do peso do piloto ou do peso total em vôo.
Caso se trate do peso total, é conveniente pôr
a asa às costas, meter no saco tudo o que habitualmente
levamos para o ar e pesarmo-nos assim.
A
“CA” tem influência na taxa de queda, velocidade,
manobrabilidade, vivacidade, estabilidade, fechos, dureza
e precisão nos comandos...
Infelizmente
os construtores não podem fazer asa à nossa
medida e por isso quando adquirimos uma asa, vemo-nos freqüentemente
confrontados com a decisão de ficarmos leves ou pesados.
Este
problema deverá ser analisado em duas perspectivas:
aerodinâmica e técnica de pilotagem
Ponto
de vista aerodinâmico:
Na
perspectiva da aerodinâmica, a carga alar influencia:
a velocidade, a taxa de queda e muito, pouco a finesse.
Segundo
Gerald Delorme: “Considerando um piloto de 65 kg, logo
mais ou menos 80 kg equipado: se a sua velocidade máxima
é de 42 km/h, ela passará a 43.3 km/h com 5
kg de lastro, a 44.5 km/h com 10 kg e a 45.8 com 15 kg".
Com
o mesmo parapente, para se voar ao dobro da velocidade seria
necessário ser quatro vezes mais pesado!
Segundo
o mesmo autor, na perspectiva da taxa de queda, teríamos:
partindo de uma taxa de queda de 1.4 m/s para um peso total
em voo de 90 kg, passaria a 1.36 m/s para 85 kg, a 1.32 m/s
para 80, a 1.28 m/s para 75 kg ou seja ganharíamos
0.12 m/s se tirarmos 15 kg!”
Resumindo:
Estando pesado Estando leve
Velocidade mais rápida aprox.+3 km mais lenta aprox.
– 3 km
Taxa de queda um pouco pior um pouco melhor
Finesse muito pouca diferença muito pouca diferença
Será assim tão importante? No ponto de vista
da aerodinâmica, seguramente que não.
Técnica
de pilotagem:
A
carga alar tem consequências significativas quer a descolar,
quer em voo:
1
– A descolar :
-
A descolagem com uma asa com uma “CA” baixa pode
levantar problemas sérios com vento mais forte, porque
normalmente, o local onde descolamos está numa zona
de aceleração e embora depois de se estar no
ar e afastado do relevo, não seja tão problemático,
no momento em que se infla a asa, poderemos ser arrastados.
Torna-se necessário conhecer muito melhor os limites
da asa e recorrer com mais frequência a ajuda de outros
pilotos (o que pessoalmente acho errado – só
devemos descolar se o podermos fazer sós!). Isto acontece
porque “o efeito de Spi” impede que a asa infle
completamente até cima, criando um arrastamento pois
a asa sobe mas não está verdadeiramente a voar.
É uma situação muito delicada na qual
pouco mais se pode fazer que manter a asa acelerada e virada
ao vento (mãos em cima, pilotagem apenas à cadeira)
e esperar que a asa chegue ao solo, preparado-nos para novo
arrastamento.
-
Com uma “CA” baixa e vento fraco o piloto terá
dificuldade em levantar e levar até cima a asa, dificultando
assim a corrida necessária (por falta de tracção).
-
Com uma carga alar elevada, o piloto tem de correr muito mais
o que em descolagens curtas, poderá ser delicado.
Podemos
resumir:
Estando pesado Estando leve
Inflado sem dificuldade mais difícil
Descolagem sem vento correr mais correr menos
Descolagem com vento fácil difícil
2
- Em voo:
É
obvio que a “CA” tem uma grande influência
no comportamento da asa em voo, assim:
-Uma
asa com uma “CA” baixa (asa grande) é necessariamente
mais lenta, com uma menor pressão nos comandos, consequentemente
com menor precisão nos comandos, menor sensibilidade
e resposta à cadeira, tendo mais dificuldade em iniciar
uma rotação. Nestas circunstâncias os
fechos serão mais frequentes, embora com menor amplitude
e reaberturas lentas, sendo necessário bombear bastante
para as reabrir.
-Uma
asa com uma “CA” maior (asa pequena) será
mais rápida, os comandos mais duros, logo maior precisão
de comando, maior sensibilidade e resposta à cadeira
e girará melhor - Os fechos não são tão
frequentes, mas quando entram são mais violentos, eventualmente
com abatidas. A reabertura é também mais rápida.
O
ideal seria poder ter uma asa para condições
fracas e outra para condições mais fortes. Uma
asa com uma “CA” baixa tem sempre a possibilidade
de ser lastrada podendo assim aproximarmo-nos do peso ideal
em voo. Tem no entanto a desvantagem do incómodo do
transporte do lastro, do peso acrescentado a descolar e a
aterrar. Parece no entanto a melhor opção.
A
PERDA
Um
jacto, um planador, um parapente, um papagaio, podem entrar
em perda se o angulo de incidência for demasiado grande.
No parapente, quando freamos completamente, os braços
junto às nádegas, a asa entra em perda; as partículas
de ar não conseguem contornar o perfil, que se torna
um verdadeiro obstáculo ao seu escoamento.
A
trajectória torna-se quase vertical com uma grande
incidência (i) durante um curto instante, depois torna-se
vertical (incidência = 90º). A asa sai da sua configuração
de voo.
Quando
entramos em perda, não se trata apenas da deformação
do perfil ou da falta de sustentação, o mais
grave poderá ser a perda de altitude (sobretudo se
estamos baixo) e as configurações em que a asa
poderá entrar, ao voltar ao voo normal.
Como
encontrar o ponto de perda
Em
voo passamos a maior parte do tempo a pilotar entre a posição
de mãos às orelhas e a posição
de mãos junto aos ombros, pois é ai que temos
o rendimento máximo da nossa asa (nas asas de competição
a finesse máxima obtém-se, normalmente, com
as mãos em cima).
Quando
começamos a ter um nível razoável de
pilotagem, devemos começar a explorar a nossa asa e
isso deverá passar pelo conhecimento do ponto de perda.
Para fazermos uma aproximação de precisão,
um "top landing" (poisar no ponto de partida, no
cimo), ao enrolarmos uma térmica mais estreita, para
evitar um obstáculo, ou encurtar uma aproximação,
poderemos ter de chegar próximo da perda.
Comecemos
por ganhar uma boa altura ao solo, e desça progressiva
e simetricamente os dois comandos. Não se trata de
enrolar os comandos nas mãos e provocar uma grande
perda, antes de sentir os primeiros sintomas da entrada em
perda. Olhe para a asa e vá baixando lentamente. O
ar começa a deixar de bater na nossa cara e os primeiros
sintomas aparecem. Os comandos começam a ficar froixos,
a asa começa a perder pressão, e numa fase posterior
a fazer de acordeão. É altura de começar
a levantar lentamente os comandos. Nunca deixe os comandos
de repente, poderá induzir-lhe uma grande abatida (
asas passa-lhe à frente a grande velocidade).
Faça
esta manobra bastantes vezes, até se sentir bem familiarizado
com ela, vai dar-lhe muita confiança e permitir-lhe
progredir muito mais rapidamente
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